sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Paradigma da solidão

Era o último dia do ano, os fogos cintilavam no céu e eu estava só. Só por dentro, de uma forma que eu já havia me sentido antes, mas que não tinha dado a devida importância. Contudo, dessa vez foi mais estranho. Estava rodeado de amigos, pessoas queridas, e ainda assim, era como se estivesse sem ninguém. Dei-me conta então de uma forma de preencher aquele vazio, talvez funcionasse. Saí andando sem falar, sem dar satisfações. Andei alguns metros a beira-mar, rodeado de pessoas vestindo branco, desejando bons votos pro ano que se iniciava. Não conhecia viva alma naquele local, só os amigos que permaneciam a alguma distância, no meu ponto de partida. Andei, andei e andei, por fim o vazio por dentro se preencheu. A praia já estava deserta, mas não me sentia só, nem oco. Pelo contrário, me sentia cheio e familiar. Estava comigo. Tinha encontrado minha mais importante companhia. Fiquei concentrado no ano que se iniciava, sem precisar me manter agradável, risonho e falante, sem me importar com trabalho, estudos, ou qualquer outra preocupação mundana. O ar se tornou mais leve, o cheiro do mar mais suave e a areia era como veludo roçando meus pés descalços. Sentei perto das marolas e apreciei o ir e vir das ondas. Então compartilhei comigo mesmo aquele momento de plenitude: “estou vivo”, pensei. Passei alguns minutos naquele estado de transe, até me dar conta que já era suficiente. Levantei com as mãos apoiadas na terra úmida e vi, ao longe, as luzes das barracas anunciando a aglomeração de gente. Bom, era hora de voltar pra solidão.

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